Se você está pensando em comprar um tênis novo para um pai ou uma mãe idosos, ou se você mesmo sente o joelho doendo depois de um dia inteiro sentado no trabalho, a maior parte do que existe por aí sobre “como escolher o tênis certo” não foi escrita pensando em você. Este texto foi.
Por que a maioria das dicas sobre tênis não serve para esses casos?
Grande parte do conteúdo disponível sobre escolha de calçado é voltada para corredores e atletas, e usa critérios que fazem sentido para quem treina, mas não necessariamente para quem quer evitar uma queda em casa ou reduzir dor no joelho ao final do expediente. São situações diferentes, com pesquisas diferentes. Reunimos aqui o que estudos recentes mostram especificamente para esses dois casos.
Comprando um tênis para o pai ou a mãe: o que realmente importa
Uma revisão publicada em setembro de 2025 na revista da Sociedade Americana de Geriatria (Journal of the American Geriatrics Society), assinada por Cheever e uma equipe de pesquisadores da Universidade da Carolina do Norte, reuniu o que existe de mais atual sobre calçado para idosos, com foco em prevenção de quedas. As recomendações são específicas e fáceis de checar na hora da compra:
- Solado largo e salto baixo. Isso aumenta a base de apoio do pé no chão e reduz a oscilação do corpo ao caminhar, o que diminui o risco de perder o equilíbrio.
- Firmeza média, nem mole demais nem duro demais. Um solado muito macio “afunda” e desestabiliza o pé a cada passo. Um solado muito duro reduz a sensação de contato com o chão. O meio-termo é o que a pesquisa associa a mais estabilidade.
- Parte de trás do tênis alta (o chamado colarinho). Ajuda a travar o tornozelo e evita que ele “role” para os lados.
- Fixação firme, com cadarço ou velcro. Isso é um dos pontos mais importantes e mais ignorados. Chinelo, babuche ou tênis do tipo “enfiar o pé” (sem nenhuma trava) deixam o calçado solto, e o pé se movimenta dentro dele a cada passo, o que aumenta o risco de tropeço. Se o seu pai ou sua mãe usa chinelo dentro de casa, a recomendação baseada em evidência é trocar por um calçado fechado, com sola firme e alguma forma de fixação, mesmo para andar só pela casa.
- Palmilha em formato de concha (mais funda nas bordas). Ajuda o pé a ficar encaixado no lugar certo dentro do tênis, em vez de escorregar.
- Solado com relevo (aquelas ranhuras de borracha). Reduz o risco de escorregão em piso liso ou molhado.
Dica prática na hora de comprar: meça o pé em pé, no fim do dia, quando ele está naturalmente mais inchado, e peça para a pessoa caminhar alguns passos dentro da loja com o tênis calçado, não apenas experimentar sentada.
Ele ou ela tem desgaste no joelho? Isso muda a escolha
Osteoartrite de joelho é o desgaste progressivo da cartilagem que cobre as pontas dos ossos na articulação, e é a causa mais comum de dor crônica no joelho em pessoas mais velhas. O joelho tem dois lados, um mais próximo do outro joelho (lado interno, chamado de medial) e um mais afastado (lado externo, chamado de lateral). Na maioria dos casos de osteoartrite, o desgaste é maior no lado interno.
A mesma revisão de Cheever e colaboradores (2025) traz uma informação importante: o tipo de calçado ideal muda dependendo de qual lado do joelho está mais desgastado. Para desgaste no lado interno (o mais comum), calçados mais flexíveis combinados com uma palmilha com cunha do lado de fora tendem a aliviar a carga sobre o joelho. Para desgaste no lado externo, a lógica se inverte: calçados mais estruturados com cunha do lado de dentro ajudam mais. Por isso, antes de comprar um calçado “para joelho”, vale a pena passar por uma avaliação com um fisioterapeuta ou ortopedista para saber qual lado está comprometido. Comprar por conta própria, sem essa informação, tem chance real de escolher exatamente o oposto do que ajudaria.
Trabalha sentado o dia inteiro e sente dor no joelho? O que realmente ajuda
Esse é um caso comum e, à primeira vista, parece contraditório: como alguém que passa o dia sentado sente dor no joelho? Na prática, o problema geralmente não é a postura sentada em si, mas o que ela causa ao longo do tempo, enfraquecimento da musculatura ao redor do joelho, menos tolerância à carga quando a pessoa finalmente caminha ou fica em pé, e às vezes ganho de peso associado ao sedentarismo. O calçado entra como parte do cuidado, mas não substitui o principal, que é voltar a movimentar essa articulação.
Sobre o calçado especificamente, existe uma descoberta que vale a pena explicar com cuidado, porque ela contraria a intuição da maioria das pessoas, inclusive de muitos profissionais.
A lógica biomecânica antiga dizia: um calçado mais flexível e leve reduz a carga sobre o joelho, então deveria doer menos. Fazia sentido no papel. Só que, quando essa ideia foi testada na prática, em um estudo publicado em 2021 na revista Annals of Internal Medicine, com 164 pessoas com osteoartrite de joelho, comparando um grupo usando calçados flexíveis com outro usando calçados mais estruturados e firmes, o resultado foi o oposto do esperado: quem usou o calçado mais estruturado teve uma redução de dor significativamente maior do que quem usou o calçado flexível. Um segundo estudo, publicado em 2024 na revista Rheumatology Advances in Practice, testou a mesma comparação combinada com um programa de exercícios e não encontrou vantagem do calçado flexível sobre o estruturado.
Ou seja: menos carga no joelho, no papel, não significou menos dor, na prática. Uma explicação plausível é que a sensação de estabilidade e firmeza ao pisar pesa mais na percepção de dor do que a quantidade exata de força que chega até a articulação.
O que isso significa na prática, para quem trabalha sentado e sente dor no joelho: prefira um calçado com estrutura, com um mínimo de firmeza e controle, em vez de um modelo minimalista, muito flexível ou “de meia”, mesmo que este pareça mais confortável à primeira vista. E, o mais importante, nenhum calçado substitui retomar o movimento. Os estudos que mostraram melhora real combinaram o calçado adequado com um programa de exercícios, não o calçado sozinho.
O amortecimento faz diferença no fim do dia?
Para quem passa longos períodos em pé, seja um profissional de saúde, um vendedor ou alguém que trabalha em movimento, existe evidência de que um amortecimento adequado (nem muito mole, nem muito duro) ajuda a reduzir desconforto e cansaço nas pernas e nas costas. Um estudo publicado em 2021 na revista International Journal of Industrial Ergonomics, que avaliou trabalhadores em profissões que exigem ficar em pé por muito tempo, identificou a dor lombar como a queixa mais comum, seguida de dor nos pés, e apontou o conforto e o ajuste do calçado como fatores relevantes para essas queixas.
Vale reforçar o mesmo ponto de antes: o objetivo não é o calçado “mais macio possível”, e sim um equilíbrio entre amortecer o impacto e manter a firmeza necessária para o pé não ficar instável dentro do sapato.
Um erro comum na hora de comprar
Um estudo publicado em 2026, feito com 79 idosos, encontrou uma relação direta entre usar calçado do tamanho ou da largura errada e o surgimento de problemas nos pés, como calos, deformidades nos dedos e dor na planta do pé. Alguns cuidados simples evitam isso:
- Meça o comprimento e a largura do pé, não só o número do calçado. Um tênis do tamanho certo, mas estreito demais, ainda é um calçado mal ajustado.
- A frente do tênis (onde ficam os dedos) precisa ter espaço suficiente para os dedos se espalharem, sem ficarem comprimidos.
- Meça sempre em pé e no fim do dia, quando o pé está no seu tamanho máximo.
Checklist prático
Para comprar um tênis para um pai ou mãe idosos
- Solado largo, salto baixo, firmeza média.
- Colarinho alto, que trave um pouco o tornozelo.
- Fixação com cadarço ou velcro. Nunca chinelo ou modelo sem trava, nem para andar em casa.
- Solado com relevo antiderrapante.
- Experimentar caminhando na loja, não só sentado.
Para quem sente dor no joelho, principalmente com rotina sedentária
- Prefira calçados estruturados e firmes a modelos minimalistas ou muito flexíveis.
- Se houver diagnóstico de osteoartrite, descubra com um profissional qual lado do joelho está mais afetado antes de comprar palmilha ou cunha corretiva.
- Combine a troca de calçado com retomada de atividade física. O calçado ajuda, mas não substitui o movimento.
- Desconfie da lógica “mais leve e mais mole é sempre melhor”. Os estudos mais rigorosos mostraram o contrário para dor de joelho.
Quando vale procurar uma avaliação profissional
Dor persistente no joelho, quedas recorrentes, ou assimetria perceptível ao caminhar não devem ser resolvidas só com a troca de calçado. Nesses casos, uma avaliação funcional individualizada ajuda a identificar a causa real e orienta a escolha do calçado e da palmilha de forma personalizada, em vez de depender de recomendações genéricas, inclusive as deste texto.
Referências Científicas
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- [3]Dainese, P., Stautemas, J., De Mits, S., Wittoek, R., Van Ginckel, A., Huysse, W., Demeyer, H., Mahieu, H., & Calders, P. (2024). Exercise and footwear in medial knee osteoarthritis: a randomized controlled trial comparing flat flexible footwear to stable supportive shoes. Rheumatology Advances in Practice, 8(4), rkae133. https://doi.org/10.1093/rap/rkae133
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